segunda-feira, abril 04, 2005

CONTESTANDO OS NÚMEROS E A EUFORIA !

Ultimamente tenho visto alguns cronistas, considerados de esquerda por minha pessoa, defendendo amorosamente a política econômica, extremamente ortodoxa, implementada pelo governo Lula. E mais ainda, atribuem alguns termos pejorativos aos críticos dos rumos do governo, como por exemplo “bolchevistas de galinheiro” e “radicais de cervejaria”.

De fato, não podemos negar que há indícios de que a política econômica atual é acertada, uma vez que os números do ano passado são, no mínimo, maravilhosos. Em 2004 tivemos um crescimento do PIB superior à 5%, o que não ocorria há dez anos, taxa de desemprego em torno de 10,5%, a mais baixa desde a adoção da nova metodologia pelo IBGE, o IPCA fechou o ano em 7,6%, o melhor resultado desde 2000, as exportações e o saldo na Balança Comercial tiveram os melhores resultados da história de nosso país e houve um expressivo superávit no Saldo em Transações Correntes.

Mas há um único porém quando analisamos esses dados, que em hipótese alguma deve ser omitido, o ano que se encerrou foi totalmente atípico se analisarmos a história recente da economia mundial. O crescimento do PIB global ultrapassou a casa dos 5%, o que não ocorria desde 1972, o PIB da América Latina sofreu um incremento da ordem de 5,5%, o que só encontra precedentes em 1992, além de haver relativa estabilidade do câmbio, ausência de crises internacionais e de os preços das commodities estarem elevados no mercado internacional.

Essa importante constatação, aliada ao fato de que os setores exportadores apresentaram melhores resultados do que os setores voltados ao mercado interno, nos leva a crer que o grande elemento dinâmico da economia brasileira em 2004 foi o comércio internacional. Desse modo, dificilmente esses esplêndidos números se concretizariam no ano que passou se tivéssemos uma conjuntura internacional adversa, ou seja, devemos o desempenho de nossa economia em 2004 à conjuntura internacional extremamente favorável e às exportações, elementos que são muito instáveis e dependem fortemente da manutenção da desvalorização do real frente ao dólar.

Mas o futuro é nebuloso, pois são esperadas supersafras agrícolas nos EUA, os estoques de alimentos estão relativamente altos em todo o mundo – o maior estoque de soja da história, o maior estoque de algodão dos últimos três anos, o estoque de suco de laranja é 20% maior do que o do ano passado e a quantidade de café armazenada é 15% superior à de 2003 -, o dólar está se desvalorizando em todo o mundo, há expectativa de elevação da taxa de juros norte-americana e o COPOM já mostra preocupação com o descontrole inflacionário.

Para concluir, faço alguns questionamentos e uma dura afirmação. Devemos considerar correta uma política econômica que não consegue manter elevadas taxas de crescimento econômico por dois anos consecutivos, produzindo um efeito stop and go que perdura por mais de uma década? Devemos considerar acertada uma política econômica que destina R$ 110 bilhões para o pagamento da dívida pública e aloca somente R$ 35 bilhões em investimentos públicos no país? Devemos apostar em uma política econômica que nos torna altamente dependentes dos resultados internacionais? Por fim, afirmo que há alternativas para essa política suicida, e mais, o ano de 2004 foi ideal para o início da mudança nos paradigmas que a fundamentam, o que, de fato, não foi feito.

2 Comments:

Blogger Thomas H. Kang said...

Meu lado heterodoxo formigando acredita em parte que o desempenho da economia mundial contribuiu para o nosso crescimento. E evidentemente tem que contribuir: não podemos esperar crescer com o resto do mundo em crise. O que preocupa é que crescemos menos que os outros, certo? Pois é, esperar pra ver.

Ah, não me comparem com a China que tem uma estrutura econômica e principalmente política totalmente diferente da nossa!

10:16 PM  
Blogger Fabio Nunes said...

Um tanto estranho essas colocações feitas por vc, pois se estivessemos em crise profunda vc seria o primeiro a criticar o regime adotado pelo governo, contudo vivemos em um contexto no qual o que é certo, é incerto; onde o amanhã pode significar morte, viver o presente para pensar no futuro é uma maneira salutar de encarar os fatos, pois se vivessemos à espera de um longo prazo "feliz" estariamos todos condenados a um indigesto presente e a um incerto futuro; fazer projeções do amanhã, na minha opinião, é viver um sonho; calcular o erro dessa projeção é simplificar algo muito complexo onde modelos teóricos nunca explicariam a realidade nua e crua a qual estamos expostos.

1:35 PM  

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