sexta-feira, abril 01, 2005

Viva o Samba!

O Brasil é um país diferente, sim. Reconhecer isso é base para qualquer análise que façamos da nossa sociedade. Como apontou Gilberto Freire, somos uma mistura de África e Europa que provém desde os nossos descendentes ibéricos - portugueses que, por sua vez, já eram uma mistura de cristãos e maomeístas desde antes das Grandes Navegações. Sendo a miscigenação uma forma de colonizar as novas terras, entra na mistura ainda os genes indígenas, fruto da cobiça européia em possuir morenas, mulheres cor de jambo, com tempero. Somos, resumindo novamente o que afirma Freire, um país de mulatos.
E se sairmos do campo de análise econômica, e excluindo alguns fatos da nossa história recente, em nada nos assemelhamos aos nossos vizinhos latino-americanos. A composição do nosso povo é de tal forma diferente que a América portuguesa se manteve unida, haja vista que os laços que nos unem são infinitamente maiores que os espinhos que nos separam. A América espanhola, por sua vez, é heterogênea, entre sí e conosco, pois quando não se trata de uma "Europa Americana", trata-se de países onde não existe a presença do negro - o fator escravidão em sua formação sociológica.
A magia que as ameríndias aqui residentes exerciam sobre os colonizadores e visitantes, e a facilidade com eram por aqui prenhadas, nos fez um país de mulheres sensuais, de gente atraente. Um país quase que todo abrangido nos trópicos, de clima nada propício à filosofia e até mesmo, o que foi suposto por List, ao progresso. Um país de pessoas que nada possuem a não ser seus corpos, e que por isso o veneram tanto. E na continuação de um processo cada vez mais característico, continuamos transando uns com os outros sem preconceitos de raças ou crenças, nos fazendo não somente um país de muitas raças, mas de raças inexistentes noutros lugares.
No Brasil, portanto, existem muitos tipos de brancos, muitos tipos de negros. Uns são mais brancos que outros, outros mais negros que terceiros. Nosso país é referência de mistura: misturamos comidas, temperos e temperaturas, idiomas e crenças. Admitindo culturas do mundo todo, acabamos por formar a nossa sem nenhuma origem antropológica. A nossa referência cultural é o mundo, e somos um mundo em nós mesmos.
E o mesmo processo que formou nossos argumentos sociológico-históricos também fez os sócio-econômicos. São os dois conseqüências da mesma raiz, e não um do outro. Impressiona a força que tem a idéia de que é necessário perdermos nossos valores culturais para desenvolvermos nossa nação. É como se a sensualidade da nossa gente, os costumes do nosso povo e a alegria e simpatia nos nossos rostos substituíssem os séculos de exploração e furto das nossas riquezas. Como se não tivéssemos passado, transformam-se as nossas maiores virtudes em defeitos e gargalos ao progresso do país.
Estão errados aqueles que pensam que desenvolvimento é o mesmo que progresso econômico. Este último é apenas um fator dentre tantos que formam o desenvolvimento, que nada mais é do que a facilidade que o meio permite alcançar a felicidade. Num país de pobres como o nosso, o progresso econômico se faz necessário somente porque dele ainda depende a felicidade de grande parcela do nosso povo, e não por outra causa sem ser essa. Em nada interessa sermos uma nação rica se essa riqueza não nos tornar mais felizes, se não nos proporcionar qualidade de vida, de trabalho, de intelectualidade, de lazer. E se o progresso econômico realmente depende da perda dos nossos valores culturais que tanto nos tornam ímpar e modelo ao planeta, sugiro que pensemos se realmente vale a pena pagar esse preço.
O mais assombroso de tudo isso é a forma como a cultura brasileira – que de fato não existe em sua caracterização - é atacada como origem do nosso subdesenvolvimento. Enxergamos e ouvimos ofensas às nossas músicas, nossas vestimentas e nossos hábitos, de pessoas que se consideram possuidoras de uma inteligência acima da média simplesmente por não consumirem o que aqui existe de popular, de nosso. Ora, obviamente não estamos tratando da cultura de má qualidade que existe em qualquer lugar do planeta, mas sim da cultura de fato. Tratamos da nossa música, da nossa literatura, da mistura que formou tudo isso. É como se nada disso existisse, como se isso fosse a causa do nosso fracasso social. Insinuam que deveríamos importar cultura e pôr uma pedra sobre tudo aquilo que construímos como povo.
O brasileiro é, sim, muito trabalhador. Não me parece lógico, o que muitos sugerem, que é a nossa “semana de carnaval” a causa dos problemas que temos, ou o nosso samba, ou a nossa literatura tropical, ou, que seja, a rebolado das nossas mulheres. Qualquer conhecedor médio da nossa formação histórica, da forma como tudo isso se construiu, sabe que nossos problemas são outros - mais profundos e técnicos, e que não se tratam mais do passado, mas da forma como construiremos o futuro.
Por isso, deixemos nossa cultura ser o modelo que é, e nos concentremos no que realmente importa. Cuidemos das nossas instituições democráticas que ainda estão em construção, e que estarão permanentemente; cuidemos do nosso meio ambiente; cuidemos da educação da nossa gente, que, daí sim, saberá distinguir o “bem” do “mal”; cuidemos do nosso lado social, que garantirá verdadeiramente a riqueza do nosso país. E cuidemos de tudo isso com muita alegria, muito carnaval, muito futebol, muita mulher bonita, pois isso em nada nos empobrece. A grandeza do Brasil será ainda mais expressiva no dia em que essas características - dignas de um país único - se juntarem ao progresso deveras, tornando, assim, nossa felicidade conseqüente de uma causa mais simples de ser entendida.

3 Comments:

Anonymous Felipe Garcia said...

Por sermos um país de grande longitude, temos muitas diferenças entre as federações que compõem o nosso Brasil. Isso faz com que essas diferenças não se restrinjam apenas a questões culturais, mas também, sociais e econômicas.
Aqueles que propõem a separação do Brasil deveriam fazer um bom curso de geografia para verem que temos quase tudo que a natureza pode oferece aos homens como fonte de matéria prima e recursos, justamente, por sermos um país longitudinal.
Os nossos hábitos, a nossa cultura e nossa formação étnica são de uma peculiaridade tão grande, que nos torna 180 milhões de pessoas muito especiais entre estas seis bilhões, que fazem parte deste nosso planeta tão grande.
É dever de cada brasileiro tratar o futebol, carnaval, samba e as brasileiras como legítimos patrimônios nacionais, pois só nós possuímos esses pré-requisitos que juntos levam a felicidade. Entretanto, infelizmente, é inadmissível que o Brasil tenha fama de ser um ótimo país para se "roubar" jovens talentos do futebol, fazer turismo sexual durante o carnaval, ter um povo malandro que só quer sambar e um bom fornecedor de mulheres à prostituição.
Necessitamos de adotar um comportamento de uma firma da teoria neoclássica, que quando o custo marginal está acima da receita marginal, ela diminui sistematicamente a produção até encontrar o ponto de equilíbrio. Em outras palavras, deveríamos sossegar o nosso “faixo" (porque estamos tendo nossa imagem prejudicada) para que tenhamos respeito e credibilidade como um povo sério e uma nação acima de qualquer suspeita.

2:04 PM  
Anonymous Manoel Gehrke Ryff Moreira said...

Não seria uma distorção o comentário em relação à teoria de List? A teoria do desenvolvimento dele compreende tantos fatores interessantes que citar apenas o fator climático, o qual ele de certa maneira menospreza, que as próprias idéias defendidas no texto escrito talvez não o fossem se não fosse a obra de List e da outros autores da Escola Histórica Alemã (como Max Weber) com seu estruturalismo histórico. Que foi fundamental no que se diz respeito ao valor de fatores estruturais, como a cultura, no desenvolvimento econômico.

7:17 PM  
Anonymous Thomas Kang said...

sou obrigado a concordar com o seu Manoel. Fui um leitor de List nas férias e sua interdisciplinaridade foi mt importante pra próprio estilo de análise que propuseste!

1:13 PM  

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